O número de municípios que decretaram situação de
emergência por conta da seca que castiga o Nordeste continua crescendo.
Com os novos decretos publicados esta semana, a região passou a ter mais
da metade das cidades nos nove Estados reconhecidamente atingidas pela
estiagem prolongada.
Segundo levantamento realizado pelo UOL com as defesas civis
estaduais, até a terça-feira (22), 907 dos 1.794 municípios nordestinos
já tinham confirmado o estado de emergência, o que representa 50,5% do
total de cidades. O número ainda pode crescer, já que alguns Estados
ainda estão recebendo decretos das prefeituras.
Somente nos últimos dias, Maranhão decretou emergência em 11
municípios –até então, o Estado era o único que não havia manifestado
publicamente problemas com a seca. Na última segunda-feira (21), a
Federação dos Municípios do Estado do Maranhão se reuniu para discutir
pela primeira vez a questão. Segundo as prefeituras atingidas, já há
registro de perda da safra. Em algumas localidades, choveu apenas metade
do esperado para o primeiro quadrimestre do ano, o que destruiu
culturas como mandioca e feijão.
Na Bahia, o número de decretos de situação de
emergência chegou a 242 na última segunda-feira (21). Segundo a Defesa
Civil Estadual, ainda há municípios do semiárido que não encaminharam
documentação, mas já estão com decretos em fase de finalização. Esta
semana, o governo iniciou a distribuição de arroz e feijão doado pela
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para a região de Irecê
foram encaminhadas 1.800 toneladas de feijão e 900 toneladas de arroz.
Segundo a Conab, serão distribuídos até 12 caminhões (de 10 toneladas
cada um) por dia.
Dos 170 municípios que decretaram emergência na
Paraíba,
91 já estão sendo atendidos pela operação Pipa, do Exército. O governo
do Estado promete que ainda este mês vai aumentar o número de veículos
contratados. A maior preocupação agora é que os municípios entreguem a
documentação necessária. Segundo o governo, 80 cidades ainda estão com
pendências, o que impede o início de ações emergenciais, como o
pagamento do programa Garantia Safra e do Bolsa Estiagem, ambos do
governo federal.
No Rio Grande do Norte, 139 municípios estão com a
situação de emergência reconhecida pelo Estado, que iniciou as obras
para construir 2.800 cisternas. Ao todo, 18 mil estão previstas. O
governo também anunciou que o próximo passo será a restauração de cerca
de 800 poços já perfurados, mas que não estão em funcionamento. Já aos
40 municípios que possuem poços de água salgada, o Estado vai distribuir
dessalinizadores, por meio do programa Água Doce.
Em Pernambuco, a Coordenadoria de Defesa Civil
contabiliza cem municípios em situação de emergência no agreste e no
sertão do Estado. O governo anunciou medidas de apoio ao sertanejo, como
o aumento no preço da compra do leite de R$ 0,76 para R$ 1,00 além da
ampliação na oferta de carros-pipa e linhas de crédito para o pequeno
agricultor. Segundo levantamento do IPA (Instituto Agronômico de
Pernambuco), mais de 90% das plantações de feijão e milho foram perdidas
pela falta de chuva.
Boletim da Defesa Civil do Ceará divulgado na última segunda-feira
mostra que são 69 municípios com decretos homologados por conta da seca.
Segundo a Fundação Cearense de Meteorologia, choveu em maio apenas 15%
do que era esperado. Na sexta-feira (18), o governo do Estado anunciou
que vai construir 1.500 cisternas para ajudar no armazenamento da água.
Em Alagoas, o número de municípios em emergência
chegou a 36. O governo do Estado anunciou, em reunião na segunda-feira
(21) com os prefeitos das cidades atingidas, que a verba estadual de
combate à seca será destinada à compra de alimentos e contratação de
carros-pipa. A estimativa é que 400 mil pessoas estejam sofrendo com a
estiagem. Segundo levantamento dos municípios são necessárias 1.041
viagens de carros-pipas por dia para suprir a demanda.
Nos 18 municípios em emergência em Sergipe, 104 mil pessoas estão
diretamente afetadas pela estiagem. Segundo a Defesa Civil Estadual, 126
carros-pipa estão sendo distribuídos por dia para amenizar o
desabastecimento das comunidades rurais.
No Piauí, 122 municípios tiveram decreto de situação
emergência homologado pelo Estado. A Secretaria Estadual da Defesa
Civil informou que vai contratar carros-pipa para os municípios mais
afetados, garantindo o abastecimento de água. Na primeira etapa, serão
contratados 300 caminhões|. O programa do governo também oferece cesta
básica às famílias atingidas e ração para os animais.
Estiagem prolongada
Segundo moradores ouvidos pelo UOL durante visita às cidades mais
afetadas da região, a seca deste ano seria uma das maiores da história.
Contudo, segundo o meteorologista e coordenador do Laboratório de
Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal
de Alagoas (Ufal), Humberto Barbosa, a mensuração exata do tamanho da
seca não é possível de ser realizada, já que há uma série de fatores e
dados que têm de ser levados em conta. Além disso, a estiagem registrada
este ano ainda não teve seu ciclo encerrado. Contudo, governos
estaduais citam que é a pior estiagem em ao menos 30 anos.
Um documento enviado nesta terça-feira (22) aos governadores e à
presidente Dilma Rousseff, elaborado pela ASA (Associação do Semiárido)
--que reúne cerca de 750 entidades do sertão nordestino--, diz que o
momento enfrentado pelo Nordeste é “extremamente grave” e que a estiagem
deverá se prolongar até 2013.
“Desde o ano passado não chove o suficiente para acumular água nas
cisternas para consumo da família e para a produção. O quadro atual é
grave! Há que se priorizar o socorro imediato às famílias que estão sem
água, mas há a mesma urgência em investir em ações estruturantes para
que essas famílias possam enfrentar os períodos de longa estiagem,
cíclicos e previsíveis, sem passar fome ou sede”, alega a ASA, cobrando
ações de convivência do sertanejo com a estiagem e políticas públicas
que minimizem os tradicionais ganhos da “indústria da seca”.